arrefecer.
te conto o gosto do chá de sumiço.
subo no escorregador espacial e deslizo em direção ao vácuo,
caio no Nada,
viro boato,
quase lembrança.
não sirvo nem pra fofoca,
graças a Deus,
nem vale o tempo do incômodo,
pode ficar tranquilo.
derreto-me da cabeça aos pés,
escorro pelo ralo,
uso dos elevadores no esgoto pra descer mais
e ninguém me acha;
nem os ratos.
me queimo, subo, sou tragado,
passeio pelos pulmões pra ser solto
e sou fumaça,
subo pro alto,
dissipo,
viro ar, viro céu, viro chuva, viro nada.
escafedo-me;
tomo chá de sumiço;
entro na terra;
emburaco-me;
sumo do mundo.
arrefeço.
sou água que desagua em mais água,
vaza, escorre, segue e some
na espera de se tornar oceano.
sou o som do silêncio;
sou Atlântida,
sou folclore, sou mito, sou conto, sou quase,
sou história de ninar, sou dejavu,
sou previsão, sou misticismo, sou esoterismo,
sou entre o simbólico e o real,
sou limbo, sou límbico, sou satántángó,
sou onírico,
sou o sonho.


